(I)
Hoje eu queria algo diferente. Diferentemente surpreendente a ponto de calar qualquer dúvida dentro de mim. Algo que me tomasse a atenção, a razão e os sentidos. Que me fizesse esquecer nomes, datas e endereços. Que me fizesse cair da corda bamba de mim mesma sempre previsível. Quero pintar as paredes com o batom vermelho e beijar seus lábios sem muros, só com a vontade seca e desapegada que me domina a alma. Depois arremessar pela janela o mundo que carrego nas costas. Vou rasgar sua vida, misturar com a minha e ver o quê sobra. Na sobra de todos os sentimentos humanos quero me jogar. Na esquina, na curva, na sarjeta. Não me procure em mim. Busque-me em cada rosto, gosto e corpo que vir por aí. E me chame mesmo de irracional, vulgar e barata, porque é nesse samba, meu bem, que vou me acabar.
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(II)
"Essa moça tá diferente
Já não me conhece mais
Está pra lá de pra frente
Está me passando pra trás
Essa moça tá decidida."*
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(III)
"Mas o tempo vai
Mas o tempo vem
Ela me desfaz
Mas o que é que tem
Se do lado esquerdo do peito
No fundo, ela ainda me quer bem"*
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*Essa moça tá diferente, Chico Buarque
