domingo, 15 de março de 2009

(I)
Hoje eu queria algo diferente. Diferentemente surpreendente a ponto de calar qualquer dúvida dentro de mim. Algo que me tomasse a atenção, a razão e os sentidos. Que me fizesse esquecer nomes, datas e endereços. Que me fizesse cair da corda bamba de mim mesma sempre previsível. Quero pintar as paredes com o batom vermelho e beijar seus lábios sem muros, só com a vontade seca e desapegada que me domina a alma. Depois arremessar pela janela o mundo que carrego nas costas. Vou rasgar sua vida, misturar com a minha e ver o quê sobra. Na sobra de todos os sentimentos humanos quero me jogar. Na esquina, na curva, na sarjeta. Não me procure em mim. Busque-me em cada rosto, gosto e corpo que vir por aí. E me chame mesmo de irracional, vulgar e barata, porque é nesse samba, meu bem, que vou me acabar.
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(II)
"Essa moça tá diferente
Já não me conhece mais
Está pra lá de pra frente
Está me passando pra trás
Essa moça tá decidida."*
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(III)
"Mas o tempo vai
Mas o tempo vem
Ela me desfaz
Mas o que é que tem
Se do lado esquerdo do peito
No fundo, ela ainda me quer bem"*
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*Essa moça tá diferente, Chico Buarque

quarta-feira, 4 de março de 2009

Pobre menina dos olhos do mar. Gotas d’água atravessam o rosto, borrando sua maior armadura. A fraqueza diante de si é cada vez mais clara. Não consegue nem ver o esmalte vermelho desbotado. Jogada, largada, invisível pros outros. Pior. Invisível pra si mesma. O cansaço vence qualquer outra coisa na batalha pra se manter erguida. Não agüenta mais tentar. Dignidade perdida. Em que lugar ficaram seus sonhos? Será que ela ainda pode sonhar? O que resta pra quem viveu na contramão em nome de uma, uma não-sei-o-quê? Compaixão pra ela é castigo. E a derrota, talvez, o melhor (único) remédio que pode tomar.


Seus castelos desmancharam-se como os de areia de menina. O poder soberano de controle mais uma vez foi tomado. Dessa vez, pelo anti-herói. Mãos vazias no meio da guerra. Mente ocupada com vários futuros do pretérito e acabada com os passados imperfeitos. A onda do mar de seus olhos derrubou o forte que havia construído. Que linha tênue entre o agora e o que está atrás daquela porta. Vai lá e bate. Quebra a cara pela última vez. E depois volta. Abraça você mesma mais uma vez.

domingo, 1 de março de 2009

o que vejo de longe
ultrapassa o horizonte
mas é o desejo na espera.

dessa vez eu me jogo,
me permito,
revelo e estouro.
não sou mais racional.
sou poeta.

o tempo que passa,
a repressão que congela.
não olho pro sol,
não vejo pra frente,
só sinto a cor dos olhos dela.

mas hoje eu me mudo,
eu troco meu nome.
não sou mais quem eu era.

sentimento que rasga o peito
e inunda a alma
vou cuspir mil palavras
que causam percepção inversa

vou atrair o seu ódio
e o provocar o escárnio
até que fique estampado
o que eu quero com essa merda.