A cena foi espetacular. Perdeu quem não viu. Cariocas e outros brasileiros amontoaram-se aos milhares nas areias de Copacabana para comemorar a consagração do Rio de Janeiro como sede olímpica de 2016.
E a euforia não se esbarrou nos limites geográficos da Cidade Maravilhosa. Pelo contrário. O país todo, uníssono, celebrou a vitória do Brasil perante três outros países (todos desenvolvidos), representados pelas cidades de Chicago, Tóquio e Madri.
Até o Presidente, ainda tomado pela emoção daquele momento, não hesitou em dizer que esta escolha representou a “conquista da cidadania internacional” e que “foi eliminada a última coisa de preconceito em relação ao Brasil.”
É, Lula, realmente pode-se cantar o “Yes, we créu”.
Afinal, esta é a continuidade de um momento histórico ímpar. Ora, a mesma crise econômica mundial que foi responsável pela decretação de concordata de grandes grupos econômicos mundiais nos atingiu apenas como “marolinha”. Além disso, descobrimos o pré-sal, ganhamos o apoio do presidente francês à inclusão brasileira no Conselho de Segurança da ONU, sem falar de vitórias de outros naipes.
Quem duvidará da capacidade brasileira em 2016?
Se esta conquista tende a abrir os olhos do mundo em relação a nós, nós, os brasileiros, não podemos desviar a visão do nosso próprio umbigo.
Afinal de contas, ainda não é tempo de caírem as lágrimas olímpicas e os problemas cotidianos há muito assombram o presente.
Para começar, dois exemplos. Enquanto os ânimos estavam voltados pra Copenhague, aqui, no Brasil, o TCU anunciava – mais uma vez - irregularidades em obras do governo federal, recomendando a paralisação de 41 destas. Dias antes, vazou a prova do ENEM.
Isso sem falar dos outros tantos problemas crônicos brasileiros.
Mas aí quando começam a surgir o desconforto e a desconfiança despontam logo argumentos pró-olímpicos como a geração de empregos, investimentos no turismo e visibilidade internacional.
Claro que nada disso pode ser esquecido, mas outras questões socialmente mais importantes precisam da mesma prioridade neste momento.
Ora, para não ir muito longe, o próprio Rio está tomado pelo tráfico e pela violência urbana. A Cidade Maravilhosa vive em uma guerra interna – com o mesmo grau de insegurança, violência e morte desta. Até as Forças Armadas já tiveram que intervir. E o problema não é novidade e nem tratado às escondidas. Pelo contrário. Sua banalização é a característica mais cruel e, mesmo assim, até hoje não se visualiza solução – e nem se nota esforços neste sentido.
Por outro lado, o projeto olímpico já foi decidido em todos os detalhes e poderá contar – inicialmente - com vultosos R$ 25,9 bilhões.
E aí vem a pergunta:
Será que nós, brasileiros, não ousamos demais ao optar pelo luxo no lugar do básico? Em outras palavras, como nos comprometemos com um evento de tal porte se ainda não se pode garantir direitos mínimos como segurança pública, ou honestidade política?
Sem esquecer que os gastos públicos com o evento pouco se reverterão em proveito do povo.
Fazendo uso das palavras de Sérgio Malbergier[1], “Depois de tantas décadas perdidas, não podemos deixar mais essa passar. É hora de espírito crítico e racionalidade. A euforia não deve esconder os grandes defeitos do país, todos óbvios, provas óbvias do nosso subdesenvolvimento. Vencemos Chicago e Obama, mas não vencemos Sarney e Renan.”
[1] Sérgio Malbergier é editor do caderno ‘Dinheiro’ da Folha de S. Paulo. Foi editor do caderno ‘Mundo’ (2000-2004), correspondente em Londres (1994) e enviado especial a países como Iraque, Israel e Venezuela, entre outros. Dirigiu dois curta-metragens, "A Árvore" (1986) e "Carô no Inferno" (1987). Escreve para a Folha Online às quintas. Trecho extraído de: MALBERGIER, Sérgio. Pra frente, Brasil! Folha Online.
