Este texto é um desabado. E é um desabafo porque preciso tirar de mim sentimentos que não me cabem mais. Preciso me livrar desta angústia que corrói e que paralisa - conseqüências da minha fraqueza em não saber lidar com relacionamentos pela metade. E agora me vejo inerte, perdida, sem saber o que fazer. E não sei de nada disso porque não tenho forças. Porque já empreguei todos os meus esforços e o que recebi foi desprezo misturado com frieza. Não dá mais pra mim. Não consigo mais oferecer a cara, não consigo me contentar com a sobra. O sorriso que encobre o desgaste não mais fica bem, nem sei desenvolver as conversas que mantêm as aparências – o diálogo simplesmente terminou. Eu sei que qualquer fim é doloroso, mas não é tão pior quanto o preço que estou pagando. Eu precisava deste desabafo.
quinta-feira, 1 de julho de 2010
sábado, 26 de junho de 2010
Ainda me lembro dos óculos escuros. De início pareciam desproporcionais em relação ao resto, mas depois vi que foram feitos exatamente para aqueles olhos. Como ternos bem cortados por estilista de confiança.
Devo, no entanto, dizer que sua melhor posição não era quando encobriam aqueles olhos, mas quando, estando levemente abaixo deles, sustentados pelo nariz, deixavam que o sol fosse refletido, sem interferências, pelas cores do mar.
Aqueles óculos escuros deveriam ter vida própria. Pelo menos eram capazes de me convencer para qualquer coisa, como se fossem coringas que nasceram para mudar o rumo do jogo.
Diante dos óculos escuros eu não sabia mais quem eu era. Suspeito até que, durante certo tempo, eles fossem meus próprios olhos, que mandavam no resto do corpo.
Mas que tolice pensar que os óculos escuros eram meus. E, ainda que eles fossem, os olhos de trás não mais o eram: eles não eram de ninguém. Depois de passarem por vários olhos, eles não se demorariam em mim, não durante o tempo que eu queria, mas pelo tempo que se julgou necessário, em uma decisão unilateral.
domingo, 20 de junho de 2010
em meio a pensamentos aleatórios, me veio esta frase. na verdade, devo dizer que vez ou outra ela me aparece, mas aí é pelo significado particular que tem em minha vida. hoje, no entanto, não foi este o sentido. o que eu queria mesmo saber é por que certas pessoas escolhem passar e não demorar nos outros. isso eu realmente não entendo. não entendo porque, pelo menos para mim, o mínimo contato cria expectativas, rouba tempo, pensamentos. e aí como reagir de forma indiferente? como simplesmente olhar e passar? assumo de cara: não consigo. talvez por ingenuidade, mas este é o fato. acho egoísmo se deixar em alguém e não demorar em alguém. soa até contraditório. não digo que as pessoas têm que, obrigatoriamente, se vincular aos outros; mas acho que, a partir do momento em que se abre a porta, não dá mais pra ignorar - não sem motivos.
é como encontrar a verbena que se procurava e depois largar a verbena.
comigo, repito, não é assim.
* lygia fagundes telles em herbarium
segunda-feira, 14 de junho de 2010
quinta-feira, 10 de junho de 2010
do círculo de fora.
antes de prosseguir, alguém, por favor, me explique: desde quando respeito demais é defeito? na verdade, ao escutar isso, quase levo como elogio, não fosse o duro tom das palavras.
(pausa)
apesar de ter preferido o silêncio em primeiro momento, peço agora espaço para a réplica.
em poucas palavras, respeito limites. vou até onde acho que é permitido. na verdade, nem sempre avanço tanto - às vezes é bom manter uma margem de segurança.
entretanto, se tem coisa que gosto é de envolvimento. e quando há reciprocidade ouso até em ultrapassar tal margem. mas, repito, tem que ter reciprocidade. e sem falsa modéstia, nem sempre cobro tanto para mim. gosto mesmo é de estar à disposição, de poder abraçar o problema, pensar junto e usar (e não perder) o meu tempo na busca de solução. sou fiel mesmo às pessoas e reprovo abandono. aqui a união é indissolúvel, desde que a outra parte manifeste descontentamento (de mim, é difícil partir esta vontade). mas, amigos, tem que ter reciprocidade. caso contrário, prefiro o círculo de fora.
sábado, 24 de abril de 2010
nada me chama tanto quanto olhos que se movem suavemente, que fitam olhos e boca num só gesto, nervosos e turvos, mas como se estivessem vazios. são olhos que falam no silêncio, pontuais e objetivos, que chamam sem rodeios, mas que aos desatentos nada são.
é a sutileza de um gesto, de uma mão na outra mão conscientemente ao acaso, que faz aflorar o desejo, ainda reprimido pela dúvida, pela dúvida causada pela sutileza!
ah, e como se perde o sentido nessa hora. e como se pensa em avançar, em se declarar, mas em outro instante se é tomado pela razão e pela dúvida e se dá dois passos para trás.
obra da sutileza, meus caros.
mas bem analisando, a sutileza também faz atiçar. e a entrega depois é prêmio maior pra quem persiste.
e o encontro depois é sem cerimônias, sem meias palavras, sem dúvidas e sem roupas - a sutileza fica pras outras horas.
