Ainda me lembro dos óculos escuros. De início pareciam desproporcionais em relação ao resto, mas depois vi que foram feitos exatamente para aqueles olhos. Como ternos bem cortados por estilista de confiança.
Devo, no entanto, dizer que sua melhor posição não era quando encobriam aqueles olhos, mas quando, estando levemente abaixo deles, sustentados pelo nariz, deixavam que o sol fosse refletido, sem interferências, pelas cores do mar.
Aqueles óculos escuros deveriam ter vida própria. Pelo menos eram capazes de me convencer para qualquer coisa, como se fossem coringas que nasceram para mudar o rumo do jogo.
Diante dos óculos escuros eu não sabia mais quem eu era. Suspeito até que, durante certo tempo, eles fossem meus próprios olhos, que mandavam no resto do corpo.
Mas que tolice pensar que os óculos escuros eram meus. E, ainda que eles fossem, os olhos de trás não mais o eram: eles não eram de ninguém. Depois de passarem por vários olhos, eles não se demorariam em mim, não durante o tempo que eu queria, mas pelo tempo que se julgou necessário, em uma decisão unilateral.
